#73 • California Dial
Objeto: Apple Watch usando a face California
Esta é a série Vida & Design em 200 Objetos. Nela, apresento uma visão pessoal a partir de exemplos comuns, para mostrar que há uma "camada" de inteligência por trás de tudo o que usamos no dia a dia. Os números aparecem fora de sequência.
#73 • Apple Watch usando a face California
Quando os primeiros smartwatches foram lançados, achei a coisa toda meio idiota. Para quê ter um pequeno computador no seu pulso se já havíamos nos tornado verdadeiros ciborgues, com um onipresente smartphone sempre anexado de alguma forma aos nossos corpos?
Como eu estava errado.
A partir do momento em que aderi à moda (sim, eu admito!), passei a usar um desses penduricalhos constantemente. Atualmente, uso meu Apple Watch SE para, entre outras coisas:
· Alarmes e lembretes (múltiplos ao longo do dia);
· Para saber a previsão do tempo;
· Para acionar atalhos, pequenos algoritmos que programei no app. Shortcuts da Apple;
· Para invocar a Siri e outros assistentes virtuais, falando diretamente com o relógio, ao estilo Dick Tracy.
Ah, e uso para saber as horas também.
Enfim, o smartwatch tornou-se um segundo cérebro, poupando o primeiro de se cansar com operações cotidianas e me livrando de distrações.
E ao fazer tudo isso, com um giro do pulso, o relógio me mostra sua face: California Dial. Das dezenas disponíveis no WatchOS 26 (o sistema vigente enquanto escrevo estas linhas), trata-se da minha preferida.
O California Dial é composto por algarismos romanos, normalmente na parte de cima da face, e algarismos arábicos embaixo. O número 12 é substituído por um triângulo, enquanto os outros cantos cardeais — três, seis, nove — são substituídos por travessões.
Essa configuração foi criada em algum momento no fim dos anos 1930 ou começo dos 1940, sem que se saiba muito bem por quê. Meu palpite é que algum relojoeiro quis mostrar todas as possibilidades de visualização de uma só vez, para no fim perceber que a mistura de estilos tornava mais fácil a leitura.
De fato, há alguma coisa nessa composição de símbolos que faz com que os números sejam lidos rapidamente, com precisão e de qualquer ângulo, até de cabeça para baixo. Logo marcas como Rolex e Panerai perceberam a utilidade desse tipo de face para pessoas que estão em movimento constante, em locais de baixa luminosidade e situações de tensão: especialmente mergulhadores e militares.
A Rolex, inclusive, registra em 1942 a patente do dial como "a prova de erro" ou de "alta visibilidade". Isso porque, além dos símbolos pouco ortodoxos, os algarismos costumavam vir com uma demão de material radioativo, que brilhava no escuro.
Patente Rolex de 1942
E daí vem o nome que usamos hoje. Nos anos 1970-1980, esse tipo de face voltou à moda, mas pairava um receio em relação à radioatividade. Por isso, colecionadores começaram a enviar seus relógios para serem restaurados e descontaminados no estado da Califórnia/EUA, onde uma indústria especializada prosperou na época.
Até agora falei só de funcionalidade, que é o mais importante. Mas há uma dimensão estética também. A variedade dos símbolos usados tira o dial do lugar comum, garantindo relógios belíssimos como os modelos California do Panerai Radiomir ou do Rolex Oyster.
Então fica aqui o meu apelo: dê valor a composições inusitadas e ideias incomuns. Pode ser que o resultado seja muito melhor que o esperado.
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Esta postagem foi feita SEM o uso de Inteligência Artificial.